Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

freguesia S.Vicente (cont.)

F.S.Vicente (cPassou a ser conhecido esta solução dada, bem bracarense, como a de TORRES TRASEIRAS. Ora torre de São Vicente, que ora vemos no seu estilo barroco, não é a primitiva. Sabemos isto consultando o Diário Bracarense do memorialista Silva Thadim, ( século XIX ), que a página 560 refere o seguinte : “Em o dia 20 de Dezembro de 1812, deu nesta cidade um grande trovão que atemorizou toda a cidade e caiu uma faísca na torre de São Vicente, a qual a derrotou toda a torre das sineiras a para cima e por isso não tocaram mais os sinos dela. A dita faísca ou raio veio dar à sacristia, deitou a imagem do Santo Cristo que nela estava abaixo e lhe quebrou um braço. Depois veio dar à igreja onde fez grande fumaça que foi necessário abrir as portas dela para a deitar fora e se sumiu na terra dentro da mesma igreja, É a segunda que tem caído na dita torre e da qual eu me recordo bem e de ser consertada desde o meio para cima”. Quando do resultado após o derrube provocado pelo primeiro raio que caiu na torre, foram colocadas nela algumas relíquias de Santos que a deviam proteger contra raios e coriscos, como as de Santa Bárbara. Como veremos foi infrutífera tal medida, porque passados anos, de novo foi atingida por uma descarga eléctrica. Agora e a partir da data em que foi colocado um pára-raios, nunca mais a bela torre sofreu as sevícias do temporal, isto no que diz respeito à queda de raios, porque os temporais ainda há poucos ali fizeram os seus estragos. Mas voltando um pouco atrás, Silva Thadim não nos diz se o estilo inicial da torre foi respeitado na reconstrução, mas é de crer que sim. Conserva ela todos os elementos barrocos e, reparando bem, nota-se nas pedras por baixo das sineiras, na cercadura que algumas apresentam nas nela falhas e partes partidas mostrando os estragos causados. Como acima dissemos, há poucos anos um grande temporal derrubou o seu magnífico cata-vento. A grimpa que pesava mais de 300, rica peça comparável a outras duas da igreja de Santa Cruz, veio abaixo e despedaçou-se no lagedo e, jaziam os seus esfrangalhados restos, num canto do terreiro. TRADIÇÕES A FOGUEIRA DE SÃO VICENTE Quatro ou cinco dias antes da Solenidade da Festa do Mártir São Vicente, que tem lugar no dia 22 de Janeiro, o rapazio das redondezas principia a correr as ruas do burgo, lançando o pregão “LENHA, LENHA, LENHA PARA SÃO VICENTE”, e vai recolhendo aos poucos a lenha que os fregueses e devotos do Santo Mártir oferecem para a fogueira que, na noite que antecede o dia festivo, tem lugar no adro, em frente da porta principal. É uma tradição que se vem repetindo ao longo dos anos. Por volta da meia noite é lançado fogo à enorme pilha que o rapazio reuniu, num clara alusão ao martírio de São Vicente que, dizem, foi queimado vivo. Foguetes sobem ao ar num estalejar ensurdecedor. A festa anima. Os tabuleiros com rebuçados artesanais – os rebuçados do Senhor – embrulhados em papeis de cores vistosas, feitos de açúcar em ponto lançado sobre uma chapa de ferro, previamente aquecida ao rubro, chamam a atenção da catraiada. Cesto com velas de cera, abundam por aquele terreiro, para que os devotos, comprando-as, oferecem ao Santo Milagroso cumprindo as suas promessas. A ROMARIA DOS MENINOS Durante os dois dias de festa as gentes da cidade ocorrem ao templo, com as suas crianças, numa romaria compacta, tão concorrida que por vezes é quase impossível entrar na igreja. A causa desta afluência está na crença de que São Vicente é o Santo que protege a crianças, livrando-as da terrível doenças das bexigas ( Varíola ). Pode afirmar-se que não haja ninguém em Braga, que, pelo menos uma vez na sua vida, não tivesse feito a romagem ao templo do Mártir e não se tivesse ajoelhado perante o altar onde se venera tão grande Santo e não tenha acendido uma vela votiva, pois está arreigada, profundamente, nas gentes bracarenses. LER O FUTURO Tradição hoje perdida e de só alguns velhos lavradores se lembrarão, era a de que à meia noite – na noite da fogueira - se ler o futuro do ano agrícola. Hoje já ninguém procede a esse ritual. Ao soar – primeira badalada da meia noite reunia-se no adro da igreja os lavradores das redondezas. Um deles, possivelmente o mais velho e mais sabido na interpretação da leitura, acendia uma vela benta, isto é, devidamente benzida.Conforme a inclinação da chama, para Norte, Sul, Nascente ou Poente, se se avivasse ou morresse, o “ledor”, anunciava como se comportaria o próximo ano agrícola se seria bom para o milhão, para a vinha, para o azeite enfim, para a agricultura em geral ou, pelo contrário se avizinhava um mau ano. Hoje acreditaria alguém nisso ? No entanto era um ritual que se cumpria e que por certo terminaria depois pelo pedido da intercessão do Santo para o bom ano, em alguma taberna que seria o modo de pagamento ao adivinho. OS MOLETINHOS DE SÃO VICENTE No dia da festa é costume obrigatório – sem este costume não haveria festa – comprar os MOLETINHOS DE SÃO VICENTE, um saboroso bolo de pão levedo que tem tradição. De onde veio ela ? Nada de concrecto se pode afirmar. Possivelmente terá nascido na velha “usança” da doçaria bracarense, talvez conventual ? Sabemos que as freiras eram exímias na confecção da deliciosa doçaria. Chegou até nós o doce fino – doce de ovos, sem farinha e só com amêndoa ralada e açúcar, pousado e embrulhado em obreia – o famoso toucinho do céu, as queijadas de amêndoa e outros regalos que tem feito a volúpia de muitos gulosos. Há quem afirme, no entanto que os “moletinhos”, não tem a atestá-los antiguidade. Dizem ter nascido da mão de uma doceira bracarense que no século dezanove ou princípios de vinte lançou a ideia de os produzir. Também dizem que como em todos as romarias minhotas, o doce sempre aparecia e aparece – estamos a lembrar-nos dos doces brancos, recobertos de açúcar – porque não criar um especial para a Romaria dos Meninos ? E porque não aproveitar a fôrma da grelha do martírio de SãoVicente ? E assim, uma bracarense, boa cozinheira e melhor doceira, com ovos, fermento, farinha, açúcar e outros ingredientes necessários, inventou um delicioso bolo que agora faz parte integrante e indispensável na romaria de SãoVicente. O RESTAURO DA PARÓQUIA E A FUNDAÇÃO DE FREGUESIA CIVIL Quando em 25 de Março de 1926, dia da Festa da Anunciação de Nossa Senhora - o Arcebispo Dom Manuel Vieira de Matos, remodelou por decreto as freguesias da cidade, não fundou uma nova paróquia de São Vicente, mas podemos dizer, ressuscitou-a. Baseamos esta nossa convicção no que refere Azevedo Coutinho, no Guia do Viajante de Braga que na pág. 48 : “Há noticia de que, no sítio de Infias, houve em tempo remoto, não igreja, mas paróquia de S. Vicente, e n’um tombo, feito no século X, dos limites do bispado de Dume, consta isso mesmo.” De facto, também Albano Belino in “Inscripções e Letreiros da Cidade de Braga, a isso faz referência na página 48 :´ “No livro Rerum Memorabilium, existente no arquivo da Mitra, e mandado escrever pelo arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus ( apelido Castro ), para coleccionar documentos relativos à história eclesiástica de Braga, lê-se que no século X se fizera Tombo dos Limites do Bispado de Dume, com assistência do Rei de Leão, Bispo, e outras pessoas gradas ; e que no referido Tombo consta a existência da igreja de São Vicente no sítio de Infias.” Assim Dom Manuel Vieira de Matos, proceder à divisão e remodelação das paróquias da cidade veio assim dar a São Vicente um lugar que por direito próprio de novo (re)conquistou, como se vê pelo inicio do decreto arcebispal : “…Visto os autos – Mostra-se que a antiga circunscrição paroquial da cidade de Braga, pelo considerável aumento de população e pela urgência em se prover as necessidades do culto e da melhor segurança da salvação das almas carece de uma larga remodelação …- Mostra-se no populoso bairro de São Vicente, actualmente divido em três das freguesias da cidade, poderia criar-se uma paróquia sem prejuízo das actuais e profícuos resultados para o pastoramento das almas …”, Portanto, a partir de 25 de Março de 1926, (re)criou-se a paróquia de São Vicente, anexando a ela parte das freguesias de S. Victor, São Lázaro e S. João do Souto. Desta maneira ficou resolvido o problema que longe vinha entre a Confraria e o prior de São Victor, que exercendo a jurisdição sobre a Igreja de São Vicente nunca quis abdicar dos seus direitos. Finalmente em 6 de Dezembro de 1933 foi oficialmente criada a freguesia civil de São Vicente. Na sua grande extensão, passa desde as Pocinhas (nova urbanização de Infias), Monte Castro, pelo meio do Campo do Salvador (Mercado Municipal), Igreja do Carmo, pelo meio das ruas Carvalhal e de Santo André e Campo Novo, parte da rua de São Gonçalo desde o gaveto com a Avenida (à direita de quem sobe), rua de Guadalupe, Regueira, cortando pela rua Camões, até Santa Margarida (lado Poente) e entrando no meio da rua Dom Manuel Vieira de Matos, até ao encontro com a rua de São Domingos dirige-se ao meio do Largo do Monte de Arcos. Passa pela parte Poente do rua do Areal circunda a cerca do Quartel de Cavalaria (antigo R. I. 8), e pela antiga quinta de Torrados (urbanização de Infias), vai fechar o seu aro, no citado lugar das Pocinhas. Neste grande espaço nasceram ultimamente urbanizações, exemplo Pachancho, centros comerciais, comércio, serviços e pequenas indústrias. De notar que dentro da freguesia se encontra a Casa de Vale Flores (autêntico museu particular) com sua capela particular de Nossa Senhora do Pilar, o Cruzeiro do Senhor das Ãncias e o busto de Domingos Pereira,(Jardim de Infias), o Liceu Sá de Miranda, a citada Igreja de São Vicente, o Lar de São José (antigo Convento de Santa Teresa), a Universidade Católica instalada no antigo Seminário de Santo António e São Luís Gonzaga (seminário da sopa) e Faculdade de Filosofia. Não só pelo espaço que ocupa, a Freguesia de São Vicente é uma das três maiores e mais populosas desta nobre cidade de Braga. Braga, 10 de Novembro de 2010 Luís Costa Email: luisdiascosta@sapo.pt Telf. 253 216 602 1 – Tesouros Artísticos de Portugal –Ed. .S.R.D. pag 32 2- Albano Belino - Archeologia Christã pg., 191 – ( 1900 ) 3 - Discours Premilinaires, ou Tableau de L’Histoire de Église. Pg. 432 ( 1758 ) 4 - Nóbrega – Vaz-Osório – Pedras de Armas e Armas Tumulares do Distrito de Braga - Cidade 5 -Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, 2ª série nº 2, pag. 5 ont.)
publicado por Varziano às 16:25
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