Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

Freguesia de São Victor

SÃO VICTOR EM 1701 O padre António Carvalho da Costa, editou em 1701, dedicada a Sua Magestade o Sereníssimo Rei Dom Pedro II (palavras suas), uma obra em dois tomos, na qual se propôs descrever, na esfera continental do dilatado reino de Portugal, que então abraçava as quatro partes do mundo. Deu-lhe o título de “COROGRAFIA PORTUGUEZA”, e na dedicatória diz: “ A Corografia histórica deste Reino é todo o emprego deste livro: nele verá Vª Mag. o número das Cidades, que com tanta magnificência tem engrandecido com obras sumptuosas, tem assegurado fortificações inexpugnáveis; Vilas que, com suma benignidade tem ilustrado com privilégios; os Lugares que tem erigido em Vilas, e que tem ampliado os termos…Tudo isto, Senhor, verá … neste livro…” Despertou-me a curiosidade saber como se referiria à Bracara Augusta, dos princípios do século XVIII e, de um modo mais especial, à freguesia da minha residência, São Victor. E assim encontrei numa edição muito posterior, que estou a seguir julgo, que da última metade do século XIX, já depois da reforma administrativa de Mousinho da Silveira, a páginas 157, do 1º Tomo, a referência a São Victor, seguindo a narrativa que não a ortografia, que procurei actualizar, vou abaixo transcrever. No entanto e como desde há muito tempo e agora com mais insistência, o assunto tem sido muito debatido, talvez nem caiba mal aqui o que o último parágrafo que ali está inserido antes, propriamente entrar no que se refere à freguesia que nos interessa para este escrito: “também há restos de haver aquedutos , mui usados nos tempos do Romanos, com que se provia a Cidade de água” Estaria o autor a referir-se ao manancial das Sete Fontes ? Passemos então à transcrição: “ S. Victor, chamado vulgarmente S. Vitouro, foi mosteiro de Frades Bentos, fundado por São Martinho de Dume doado com uma quinta que ali havia dos Bispos de Santiago, aos Monges do Convento de S. Antão de Moure por Vasco Mendes, Sacerdote, de quem eram; a qual doação foi feita em 10 de Novembro de 565, como consta de uma Escritura, que traduzida em Português, quer dizer: Damos a nossa quinta, ou herdade com tudo quanto lhe pertence, e com a Igreja de S. Vitouro, a vós Varões de Deus, para que ali façais um Templo santo e Mosteiro em que moreis. Cumpriram os Monges de Moure a condição do doador fazendo Igreja e Mosteiro naquele lugar, aonde viveram largo tempo, fazendo o ofício de Capelains do Glorioso Mártir S. Vitouro, e foi sempre Priorado seu; mas estando, como se entende, destruído pelos Mouros, se deu ao Arcebispo S. Geraldo juntamente com o de Moure. Sagrou esta Igreja de S. Vitouro o Arcebispo Dom Paio Mendes em tempo delRei D. Afonso Henriques: é Vigairaria que apresentam os Arcebispos, que se intitulam Abades desta Igreja, rende-lhes quatrocentos mil reis, e cinquenta para o Vigário: tem mil e duzentos e oitenta vizinhos (em 1701) e mil e cinquenta e sete fogos (casas), números estes de quando foi reeditado, no século XIX, o índice do Tomo I. (Nesta data o conjunto de fogos das então restantes cinco freguesias, era de 2880, mas aqui incluía a já freguesia de São Lázaro, desmembrada de São Victor e que, só ela, absorvia já a fatia de 912 fogos). Nesta Freguesia está o lugar que chamam as Goladas, aonde S. Victor foi martirizado, de que lhe ficou o nome, e um arco dentro do qual com grades de ferro de fora se guarda uma pedra, em que foi degolado, e permanecem sinais de seu sangue das gotas que nela derramou. Também há uma torre e ruínas de edifícios a que chamam Passos, que dizem eram do Santo, hoje é Morgado, que possuem os do apelido de Silva. Tem esta Paróquia em seu distrito as Igreja e Ermidas seguintes: A Igreja de Nossa Senhora a Branca, que fundou (reformou) o Arcebispo Dom Diogo de Sousa, mandando abrir todo o terreiro, que vai da porta do Souto até esta Igreja, em tal proporção e distância, que se pode contar pela melhor praça e saída de quantas há no Reino. A imagem da Senhora é mui majestosa e devota, suspende os olhos a quem a vê, e parece-lhe oferece o Filho, que tem em seus braços: tem Confraria dos principais da Cidade, com seis Capelains, que rezam em Coro, fora muitos que tem obrigação de Missa; servem-na seus Confrades com riqueza e aparato, tem muita prata e custosos ornamentos. Celebra-se a sua festa a cinco de Agosto. Tem a invocação de Nossa Senhora a Branca, pela brancura da neve, com que em Roma apareceu branqueando o Monte Esquilino, aonde a Senhora queria que se fundasse aquele sumptuoso Templo, chamado por esta ocasião, Sancta Maria ad Nives, a cuja imitação o Arcebispo Dom Diogo mandou fundar esta Igreja pela devoção que tinha aquela Senhora, do tempo em que esteve em Roma. A Ermida de N. Senhora da Penha de França que é de Beatas, que não professam a clausura. A Ermida de Santa Ana, que fundou o Arcebispo Dom Diogo de Sousa no mesmo terreiro e campo que tomou o nome desta Santa, junto ao qual mandou levantar em boa ordem as pedras e colunas, que os Romanos, quando dominaram Braga, levantaram a diversos Imperadores para que, naqueles letreiros, tivessem os curiosos em que gastar o tempo e se fizessem peritos nas antiguidades da sua pátria. As Ermidas de S. Gonçalo, S. Lázaro, Santa Justa, Santo Adrião, Nossa Senhora das Mercês, S. Vicente, Nossa Senhora de Guadalupe, situada em um alto monte, Nossa Senhora do Pilar e São João da Ponte, situada em um ameno e dilatado campo, aonde está uma fonte que chamam do Arcebispo, cercada de muitos arvoredos. O Convento de S. Filipe de Nery,(Congregados) em que residem quinze padres.” (COROGRAFIA PORTUGUESA- 1º Tomo,1701, pag. 156. (2ª Edição 186 (?) Padre António Carvalho da Costa Na alameda de Santa Ana (Avenida Central), os Religiosos da Província da Soledade do Convento de São Frutuoso, em Real, fundado pelo Arcebispo Dom Diogo, tinham desde o sec. XVII, um hospício na actual casa conhecida pelo nome de Casa do Barão da Gramosa, gaveto da Avenida com a rua D. João Cândido Novais e Sousa (Cangosta da Palha). O Abade de Fonte Boa, D. Jerónimo José da Costa Rebelo, mais tarde Bispo do Porto, comprou-a e deixou-a em testamento ao referido Barão da Gramosa, seu irmão. Nesta alameda tinham também os Monges de Vilar de Frades, desde o sec. XVI, o seu hospício. Como se vê a então Paróquia de São Victor, era uma freguesia extra muros da cidade, de grande extensão e valia, e a avaliar pelas instalações religiosas devia ser tanto ou mais importante do que aquelas situadas dentro da muralha medieval citadina, como acima está provado, já pelo número de vizinhos, com o consequente número de fogos. Pode-se assim afirmar, sem rebuço, que era, como hoje, a mais populosa da urbe. Basta lembrar que, retiradas do seu aro, criou Dom José de Bragança, em 1747, a freguesia de São José de São Lázaro e depois em 1926, foi criada canonicamente (ou ressuscitada) por Dom Manuel Vieira de Matos, a paróquia de São Vicente e civilmente freguesia em 1932. A avaliar pela extensão ocupada hoje por estas duas freguesias, retiradas à jurisdição de São Victor, vemos que de facto era um importante lugar fora de muros. Mas, São Victor, não adormeceu com esta distinção. A sua população, industriosa, criou meios de se impor, na cidade arquiepiscopal. Surgiram as indústrias, é certo que caseiras, como a dos sombreireiros, mas até outras que se impuseram não só no País, como no estrangeiro. Referimo-nos, principalmente, às armas de fogo e todas suas várias componentes – como coronhas, espadas, florestes, copos de ferro (guardas mãos), etc. E era tal a qualidade destas armas que o Conde de Lippe, aquando da reorganização do exército português, não hesitou, em aconselhar a compra em Braga, dessas armas. Temos conhecimento que nos finais do sec. XVIII ou princípios do seguinte, que havia, em Braga, uma fábrica de armas, de grande sucesso, que eram exportadas para a Europa, África e Brasil. Eram produzidas em São Lázaro, por armeiro, possivelmente de origem italiana, Lázaro Lazarino, mas que se dizia natural desta cidade, e que vieram dar o nome a essas espingardas que ficaram conhecidas por LAZARINAS, e ainda em São Lázaro, a primeira fábrica de Sinos, fixa, pois que até então eram fundidos em poços junto aos locais onde se destinavam. Mas outras industrias aqui, nesta freguesia de São Victor, nasceram e deram origem ao desenvolvimento em que sempre se assentou. Já destacamos a dos sombreiros mas podemos ainda acrescentar-lhe a manufactura da indústria de seda, tecidos, metalurgia e já mais recente a de saboaria. Não podemos esquecer que foi a freguesia de São Victor que deu, em parte, durante muitos anos a comer aos bracarenses, o pão farinado nas azenhas do Rio Este, quase todas dentro do seu aro, como não podemos esquecer que também foi o manancial das Sete Fontes, (hoje tão desprezado por alguns) que matou a sêde aos muitos bracarenses, quase até aos nossos dias e isto não falando nos produtos hortícolas que vicejavam por essas quintas dos seus arredores, sacrificadas ao camartelo do progresso. São Victor, hoje pode ainda orgulhar-se de ter sido e ainda o é a mais densa, populosa e dinâmica freguesia da nobre Bracara Augusta. Braga, 13 de Outubro de 2010 LUÍS COSTA
publicado por Varziano às 20:04
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